Texto do Padre Leo Pessini, doutor em Teologia Moral e Bioética
A palavra espírito deriva do Hebraico ruah, significando “sopro”. Sopro associado com vida, assim literalmente, espiritualidade é “o sopro de vida”. O entendimento de espiritualidade é muito mais amplo que “religião”. O termo religião deriva da palavra latina religare, significando “religar”, isto é religar o mundo imanente ao transcendente e diz respeito a determinadas tradições espirituais, enquanto ganham expressão concreta em ritos e celebrações codificadas, cultural e historicamente. Falamos assim por exemplo de religião ou espiritualidade Judaica, cristã ou islâmica.
Existem muitas definições de espiritualidade, mas nenhuma esgota a riqueza de um conceito tão abrangente, profundo e plural., quando falamos de “diferentes espiritualidades”. Podemos entendê-la como sendo uma tendência inata em direção a Deus ou a uma Força Superior, que surge de nossa busca por sentido e transcendência de nossas vidas. Trata-se de uma construção que envolve “fé” e “sentido”.
Fé é crer numa força transcendental superior. Não se identifica necessariamente com Deus, nem se vincula necessariamente com a participação em rituais de uma determinada religião. É a ligação com essa força ou espírito superior, que é o componente essencial da experiência espiritual, vinculada com o sentido.
Dizer que “a vida tem sentido” envolve a convicção de que a pessoa está realizando um papel e uma missão inalienáveis na vida, que é vista como um dom. O componente “fé” da espiritualidade é um conceito na maioria das vezes associado à religião e às crenças religiosas, ao passo que o componente “sentido “ é um conceito mais universal, que existe independente das pessoas se identificarem com uma determinada religião.
Podemos então dizer que espiritual, não significa religioso e que até os que se dizem ateus, ou agnósticos têm preocupações espirituais como qualquer outra pessoa. Isto nos obriga a perguntar como as religiões organizadas cuidam das necessidades espirituais de seus fiéis.
A Associação Médica Mundial, revisou recentemente a Declaração dos Direitos do Paciente (Santiago, Chile, 2005). Entre os direitos defendidos apresenta-se o Direito à assistência religiosa ( n. 11) , afirmando que “ O paciente tem direito de receber ou recusar o conforto espiritual e moral, incluindo a ajuda de um ministro de sua opção religiosa.”
A definição de Cuidados Paliativos da Organização Mundial da Saúde (OMS) evidencia uma preocupação com o cuidado das necessidades espirituais dos pacientes e seus familiares. Oferecer cuidados paliativos de qualidade significa implementar ações inovadoras que evitem o sofrimento moral, espiritual, a desmoralização e a perda de sentido, o sentir de que tudo acabou, experiências muito freqüentes no final da vida, como nos relatam pacientes nesta condição. Existe um novo “sopro de vida” para além da vida.
Como cuidar das necessidades espirituais dos doentes:
Algumas dicas podem nos ajudar neste desafio de cuidarmos das necessidades espirituais das pessoas, quando enfrentam doenças ou sofrimentos, ou até mesmo o medo de dizer adeus à vida. Primeiramente, precisamos elaborar um “diagnóstico espiritual”, desenvolvendo nossa habilidade de escutar. Ter ouvidos capazes de comunicar compreensão, amor e solidariedade. Alguém já disse que temos dois ouvidos e uma boca, significando com isso que deveríamos ouvir duas vezes mais do que falamos. A anatomia humana é sabia e nos ensina lições.
Ouvir não somente o que é dito, mas principalmente o que não é dito e nem precisa ser verbalizado. Precisamos ser excelentes leitores da linguagem corporal. Ouvir é criar um clima em que as pessoas livremente podem partilhar o sentido de seus dias: seus medos, esperanças, dores, desapontamentos e alegrias. Não podemos esquecer que a pessoa neste momento se transformou num radar de alta sensibilidade.
Junto com o ouvir, é importante tornar-se irmão do doente, relacionando-se a partir de sua situação concreta, procurando responder às suas necessidades e não impondo as nossas. É fundamental respeitar os valores pessoais e espirituais da pessoa. Muito fácil é assaltar a pessoa espiritualmente, impondo nossos valores. Propor sim, impor nunca!
Junto com a nossa capacidade de ouvir e de sermos irmãos da pessoa, o desfio é sermos orientadores espirituais. É precisa que a gente perceba como o doente entende, interpreta e vive a sua experiência de estar doente, sentir-se tocado pela finitude, e como relaciona isto com sua fé em Deus. Neste contexto aparecem muitas visões espirituais, nem sempre cristãs, da doença, atais como: castigo ou punição, teste, destino, fatalidade, expressão de nosso fim, entre outras expressões.
Também surgem muitas visões de Deus: uns se sentem desapontados ( “Sempre fui tão bom, por que Deus permite que isto aconteça comigo? “; outros esquecidos ( “Rezo tanto, mas ele não me ouve!”); outros ficam revoltados e questionam ( “Se Deus é Pai, por que o sofrimento de seus filhos queridos? “); e finalmente, muitos aprofundam sua fé em Deus ( “ Se não fosse minha fé em Deus, eu não teria suportado tudo isto”..).
Aqui é importante trabalhar essas experiências, não reforçando a idéia de que Deus que se alegra com o sofrimento humano. O sofrimento é muito difícil entendê-lo, muito mais explicá-lo, falamos de mistério. Podemos sim, confirmar a fé onde ela está presente, despertá-la onde está adormecida e reforçá-la onde ela está frágil e deseja crescer.
Neste momento, faz muito sentido a proposta de um ritual de fé que tenha significado para a pessoa, uma oração preferida, ou então os sacramentos para os cristãos católicos, por exemplo, unção dos enfermos, eucaristia e reconciliação. É neste contexto em que muitos não vêem nenhum sentido ou então somente “desgraça” é que numa perspectiva de espiritualidade, a vida é plenificada pela graça divina.