Médica Brasileira é Referência no Câncer Infanto-Juvenil na América Latina
19/5/2005
Texto retirado da Revista Prá¡tica Hospitalar
Entrevista Dra. Silvia Regina Brandalise - Secretária-Geral da Sociedade Latino-Americana de Oncologia Pediátrica (SLAOP).
Chefe do Serviáo de Hematologia e Oncologia Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Coordenadora do Grupo Brasileiro de Tratamento da LLA na Infância. Presidente do Centro Infantil de Investigações Hematológicas Dr. Domingos A. Boldrini.
No Dia Internacional da Mulher, 8 de maráo, a Associação Paulista de Medicina fez uma homenagem às mulheres. A Dra. Silvia Brandalise foi uma das médicas escolhidas para representá-las. Há 27 anos a médica oncopediatra brasileira se dedica ao câncer infantil no país e reúne uma sucessão de importantes realizações na área para o Brasil.
Atua como docente em dedicação exclusiva no Departamento de Pediatria da Unicamp e foi pioneira na introdução da parceria das atividades da universidade nos serviços comunitários da cidade de Campinas. Em 1980 coordenou o primeiro Protocolo Nacional para Tratamento de Leucemia Linfóide Aguda (LLA) na criança, o que possibilitou a normatização e tratamento da doença e o aumento das chances de cura de 5% para 50%. Foi responsável pela descoberta de uma nova doença, reconhecida pela literatura internacional como Síndrome Brandalise, e fundou em 1978 o Centro Infantil Boldrini, um dos maiores hospitais especializados na área de onco-hematologia pediátrica da América Latina. E há dois anos é a Secretária-Geral da Sociedade Latino-Americana de Oncologia Pediátrica (SLAOP).
Para comentar todas essas conquistas, a Dra. Silvia Regina Brandalise concedeu à revista Prática Hospitalar a entrevista que publicamos a seguir.
Quais os tipos de câncer mais freqüentes em crianças?
Dra. Silvia Regina Brandalise - Os dois tipos de câncer mais comuns em crianças são a leucemia (25% a 30% dos casos) e os tumores do sistema nervoso central (20% dos casos). As crianças apresentam tumores mais indiferenciados, como neuroblastoma, tumor de Wilms, linfomas, retinoblastoma, tumores de células germinativas e hepatoblastomas. São tumores com alta taxa de proliferação. Nas crianças acima de 10-15 anos de idade aparecem os carcinomas, osteossarcomas, sarcoma de Ewing e os linfomas.
Quais os que mais preocupam os especialistas?
Dra. Brandalise - Os cânceres que mais preocupam são aqueles de difícil controle, como o neuroblastoma metastático e o sarcoma de Ewing metastático, além dos tumores irressecáveis.
Quais países fazem parte da SLAOP?
Dra. Brandalise - Todos os países da América Latina, por definição, fazem parte da SLAOP. Atualmente, são 15 os Delegados representando distintos países.
Pelos países que integram a SLAOP, quantas crianças e adolescentes estão em tratamento? E no Brasil?
Dra. Brandalise - Não é possível fazer uma estimativa para os casos do câncer pediátrico em toda a América Latina. Sabemos, entretanto, que no Brasil são registrados a cada ano 6.000 a 7.000 casos novos de câncer em pacientes abaixo de 18 anos de idade.
Qual tem sido o principal objetivo da SLAOP?
Dra. Brandalise - A SLAOP é uma sociedade de âmbito internacional, que congrega as Sociedades de Oncologia Pediátrica de vários países da América Latina. Tem por finalidade a integração de profissionais da área, promoção de congressos, convenções, conferências, cursos, exposições, fóruns, jornadas e outras atividades de interesse da Saúde Infantil, contribuindo para o desenvolvimento técnico-científico e cultural de seus profissionais.
O papel da SLAOP tem sido promover ações conjuntas com os oncologistas pediátricos, realizando intercâmbio de informações, de residência médica e tecnologias.
Quais os desafios da SLAOP?
Dra. Brandalise - Os maiores desafios da SLAOP no momento referem-se à construção de uma Sociedade atuante, com corpo administrativo completo, com ênfase na capacitação profissional e autonomia financeira.
Quais as últimas melhorias do tratamento oncológico infantil promovidas nas Américas do Sul e Central pela SLAOP?
Dra. Brandalise - As melhorias do tratamento oncológico infantil desenvolvidas nas Américas do Sul e Central dizem respeito à leucemia linfóide aguda. Parcerias internacionais com a Itália, a Alemanha e os Estados Unidos em muito melhoram estes resultados do tratamento. No Brasil, sem dúvida, foi a criação do Grupo Brasileiro de Tratamento das Leucemias na Infância (GBTLI), que promoveu significativo aumento das taxas de cura das leucemias. Novos protocolos cooperativos foram implantados em nível nacional, com expressiva melhoria a estes doentes.
Cite algum projeto importante em andamento.
Dra. Brandalise - O projeto atual mais importante entre os países será o estudo epidemiológico do retinoblastoma, um câncer ocular. Será um registro de base hospitalar que muito contribuirá para a definição de futuras estratégias terapêuticas, além de promover o conhecimento da realidade do cuidado médico nestes países.
Como ocorre a troca de protocolos de tratamento pela SLAOP?
Dra. Brandalise - A SLAOP trabalha com a troca de experiências e de protocolos de tratamento, de maneira cooperativa. A divulgação dos protocolos se faz entre os serviços nacionais ou internacionais, quer nos Congressos, nas visitas dos especialistas ou por Internet. Parcerias internacionais com o Children's Oncology Group (COG), International Society of Paediatric Oncology (SIOP) e European School of Oncology (ESO) estão sendo buscadas pelos Delegados, que sentem renovadas suas esperanças de melhorias para o câncer pediátrico em cada país. Todos unidos pelo mesmo sentimento, de que cabe a nós lutar pelo acesso médico equalitário e universal a todas as crianças e adolescentes com câncer.
Quais os resultados atuais do Protocolo Brasileiro de Tratamento da Leucemia Linfóide Aguda em crianças com Baixo Risco de Recidiva?
Dra. Brandalise - O atual protocolo brasileiro de tratamento da leucemia linfóide aguda (LLA-99), para crianças de baixo risco, tem mostrado taxas de sobrevida livre de doenáa de 88% em seis anos, resultados comparáveis àqueles dos grandes centros internacionais. É um protocolo inovador no sentido de menor toxicidade, quando comparado ao tratamento convencional e maior conforto ao paciente, pois ele necessita ir ao Hospital somente a cada três semanas.
Qual a realidade do uso das células-tronco no tratamento do câncer infantil?
Dra. Brandalise - O uso das células-tronco no tratamento do câncer infantil já é uma realidade, permitindo aumentar em muito a oportunidade da realização dos transplantes de medula óssea. O importante é que o Banco do Sangue do Cordão deve ser de uso público e a custo zero para o paciente.
Qual a importância de um centro especializado no tratamento de crianças e adolescentes com câncer de doenças do sangue, como o Centro Infantil Boldrini, do qual a sra. é presidente?
Dra. Brandalise - A importância de um centro especializado para o tratamento do câncer da criança, como o Centro Infantil de Investigações Hematológicas Dr. Domingos A. Boldrini, consiste na aglutinação num mesmo local de vários especialistas e profissionais com foco específico, que é o câncer. As vigas mestras são as áreas de diagnóstico (citológico, anatomopatológico, de imagem, citogenética, biologia molecular), de quimioterapia, de radioterapia, de cirurgia, de suporte (10 leitos para cada 50 casos novos/ano), transfusão sangüínea, psicológico e social e de reabilitação.
Quais os benefícios para os especialistas e pacientes terem um Centro como esse?
Dra. Brandalise - Para os especialistas, o benefício está na concentração do trabalho num só local. Para os pacientes, não terem necessidade de locomoção para realizar exames ou procura de leito para internação.
Como foi a descoberta da Síndrome Brandalise?
Dra. Brandalise - A descoberta da Síndrome Brandalise, que compreende anemia hemolítica, hepatosplenomegalia e corpúsculos como pérola azul nos glóbulos brancos configurou-se como um distúrbio do metabolismo da actina. Foi um trabalho desenvolvido em parceria com o St. Jude Children's Research Hospital em Memphis, TN, Estados Unidos. O impacto desta descoberta na comunidade médica foi modesto, pois trata-se de uma doença extremamente rara.
Qual o objetivo do XX Congresso Latino-Americano de Oncologia Pediátrica?
Dra. Brandalise - O objetivo do XX Congresso Latino-Americano de Oncologia Pediátrica se resume no estabelecimento de um fórum de discussões na área do câncer infantil, não só do ponto de vista médico, como da enfermagem, psicologia, classe hospitalar, farmacêuticos, patologistas e associações de pais.
Quais os destaques da programação científica?
Dra. Brandalise - São vários os destaques da programação científica, procurando-se assuntos de alta relevância. Os temas ficaram mais concentrados nos tumores sólidos das crianças.
Qual a sua opinião a respeito do tratamento da criança com câncer no Brasil?
Dra. Brandalise - Sem dúvida, houve melhora significativa não só do tratamento do câncer pediátrico no Brasil, como na oferta de Casa de Apoio Social em vários Estados. Infelizmente, ainda temos problemas de falta de leitos para atender as intercorrências, freqüentes nestes doentes. Exemplo deste fato está na Região Metropolitana de São Paulo, onde em 2004 as chances de cura estavam ainda em 40% (Dados do Registro de Base Populacional de São Paulo). Na Capital, há excelentes centros especializados, embora não consigam atender toda a demanda necessária. O acesso ao tratamento médico à crianáa com câncer ainda não é garantido em vários países na América Latina. Dessa forma, ações conjuntas da SLAOP deverão promover mudanças político-sociais em diferentes países, que garantam a universalidade do atendimento a estes doentes.