Médica com Formação em Medicina da Família e da Sociedade.
Coordenadora do Programa de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual
de São Paulo, trabalhando em Assistência Domiciliar e Enfermaria de Cuidados Paliativos.
Vice-Presidente do Capítulo de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.
Diretora do Instituto Paliar de São Paulo.
INTRODUÇÃO
O conceito de dor hoje mundialmente usado é o da Associação Internacional de Estudos da Dor (IASP) e afirma que a dor é uma “Experiência sensorial e emocional desagradável, associada a dano presente ou potencial, ou descrita em termos de tal dano”. Este conceito avança na direção de admitir que a dor é uma experiência única e individual, modificada pelo conhecimento prévio de um dano que pode ser existente ou presumido.
Neste sentido, a dor de um paciente portador de uma doença fora de possibilidade de cura pode ter uma conotação terrível pelo fato de anunciar-lhe de certa forma que a sua morte está a caminho.
Para algumas culturas, este sintoma também pode ser associado à expiação de culpa ou ser parte natural de uma doença, não podendo ser tratado com sucesso.
Portanto, admitir a importância do alívio da dor desde o início do tratamento de uma doença até as últimas horas de vida é condição fundamental para todos que trabalham com doentes em qualquer especialidade. O conhecimento do seu controle deve ser parte da formação obrigatória de todos os profissionais da área de saúde, sobretudo do médico, responsável pela prescrição de medicamentos imprescindíveis para o seu alívio.
DOR TOTAL
Na década de 1960, a médica inglesa Cecily Saunders acrescentou ao conhecimento da dor o conceito de dor total, através do qual admite que uma pessoa sofre não apenas pelos danos físicos que possui, mas também pelas conseqüências emocionais, sociais e espirituais que a proximidade da morte pode lhe proporcionar. Saunders estabeleceu a importância de uma abordagem multidisciplinar e da presença de uma equipe multiprofissional para que se obtenha o máximo sucesso no tratamento dessa pessoa. De fato, ao abordarmos pacientes portadores de doenças evolutivas e sem possibilidade de cura, percebemos muitas vezes que em determinadas situações os medicamentos não são suficientes para proporcionar o completo alívio da dor maior de viver os últimos dias, de não entender por que está gravemente enfermo, de deixar filhos desamparados, separar-se de seu amor, de não poder sustentar sua família e de não conseguir compreender o real sentido para a sua vida.
DOR GERAL
Admitimos que a dor é geral quando ela extrapola os limites da pessoa doente e afeta também as pessoas de sua convivência, sua casa e até a equipe que a atende.
O paciente com uma dor que se arrasta por semanas ou meses dificilmente reclama, chora ou geme. Um mecanismo fisiológico de proteção altera as características da percepção dessa dor e as mudanças de humor e comportamento preponderam sobre as queixas específicas. Este mecanismo recebe o nome de modulação e é responsável por alterações de comportamento, como a depressão ou agressividade associadas freqüentemente à dor crônica. Aquele paciente encolhido em seu leito, com olhar vago, de poucas palavras e expressão pesada, de cenho franzido, deve chamar a atenção do profissional de saúde. Se perguntar se tem dor, pode demorar um pouco a responder, mas aos poucos vai contar de dores terríveis e intensas, das quais até já se cansou de falar e não ser ouvido.
A visita à casa do paciente revela situação semelhante. Além do doente, a dor contagia toda a família, o ambiente, quem a freqüenta. Após dias de sofrimento testemunhado, as pessoas que convivem com o doente parecem ficar alheias à dor e mergulhar em um outro tipo de sentimento muito profundo, de tristeza e impotência.
O médico e sua equipe também se modificam ao lidar com pacientes que têm dor, quando esta tem difícil controle. Cada nova proposta terapêutica que fracassa aumenta o sentimento de impotência da equipe e, sem perceber, o doente vai sendo menos visitado. As novas alternativas vão sendo testadas sem o mesmo entusiasmo inicial. Um misto de culpa e mais impotência se instalam e imobilizam o trabalho de profissionais desavisados desta possibilidade. Aprender a lidar com estes sentimentos e buscar superá-los deve ser parte do aprendizado da equipe de Cuidados Paliativos.
AVALIAÇÃO DA DOR
A dor deve ser avaliada detalhadamente quanto a sua intensidade, duração, características físicas, ritmo, fatores desencadeantes e atenuantes. A avaliação é constante, redefinida a cada visita médica no domicílio, ambulatório, enfermaria ou contatos telefônicos. O paciente e seu cuidador precisam ser estimulados a relatar qualquer nova alteração no padrão da dor.
Atenção especial deve ser dada ao paciente idoso e aos portadores de demência em qualquer grau. Nestes, alterações de humor e de comportamento podem ser interpretadas como dor e modificam se adequadamente tratadas. De modo geral, os idosos são mais lentos para descrever seu sintoma e alguns têm muita dificuldade para entender e lidar com escalas.
Em qualquer situação: a dor é a que o paciente refere e descreve. Jamais confundida com o que o cuidador ou profissional de saúde imaginam que sente.
ESCALAS DE INTENSIDADE
Para avaliar a intensidade da dor é recomendado o uso de uma escala. Esta deve ser escolhida de forma a usar uma linguagem acessível ao doente, possibilitando que, ao seu modo, ele possa identificar quanto a dor o incomoda naquele momento e nos momentos em que fica mais ou menos intensa. Se há melhora com a medicação ou outra atitude. Alguns serviços adotam um diário da dor, anotado pelo próprio paciente ou seu cuidador. De forma prática, pode-se avaliar a intensidade de uma dor solicitando que se atribua uma nota de zero a dez ou criando formas de se apontar pequeno, médio e grande, ou ainda leve, moderada ou intensa.
Se bem compreendida, o paciente vai manter uma coerência com a evolução do alívio ou piora do seu sintoma, possibilitando avaliações subseqüentes.
Há uma tendência mundial de considerar a dor como um quinto sinal vital, aferido pelas equipes de enfermagem nos ambulatórios e nas enfermarias de todos os hospitais, independente do motivo da internação ou visita ao médico. Esta é uma maneira simples e eficiente para aumentar o diagnóstico e estabelecer o tratamento da dor em qualquer circunstância.
CLASSIFICAÇÃO DA DOR
Identificar o tipo de dor é fundamental para que se possa fazer a melhor opção terapêutica. De acordo com a sua natureza, a dor pode ser:
Nociceptiva: Quando originada a partir de estimulação de nociceptores. Esta pode ser:
• Somática: Receptores da pele e sistema músculo-esquelético. Costuma ser muito bem localizada, descrita simplesmente como dor, contínua e agravada pelo movimento. Melhores exemplos: dor óssea, ulcerações de pele, linfonodos inflamados, etc.
• Visceral: Receptores localizados em vísceras. Costuma acontecer em paroxismos (cólicas), mal localizadas, segue muitas vezes trajetos de dermátomos. Ex: dor em couraça das lesões de pulmão, cólicas abdominais.
Neuropática: Originada a partir de lesões ou compressões em estruturas do sistema Nervoso Central ou Periférico. Tem características distintas e pode ser descrita como em choque, queimação, facada ou espinhos. Pode ser desencadeada por um estímulo táctil (alodinia) e ter paroxismos aberrantes (hiperalgesia). Costuma irradiar-se por trajetos nervosos conhecidos. São exemplos: neuropatia periférica do diabético, dor ciática, dor do membro fantasma.
Complexas ou mistas: Comumente encontrada em pacientes com tumores, que por seu crescimento podem provocar inflamação, compressão e destruição de estruturas, originando uma dor de múltiplas características e que necessite de uma correta associação de drogas para o seu controle. A dor crônica não raramente adquire um caráter neuropático pela excessiva ativação de neurônios em sua transmissão.
PRINCÍPIOS DO CONTROLE DA DOR
Em 1986, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu alguns princípios para o tratamento da dor oncológica, que podem ser aplicados à dor crônica de qualquer natureza.
Segundo estes princípios, a dor deve ser tratada:
Pela boca: Usar a via oral sempre que possível, seguida pelas vias retal, subcutânea, endovenosa e, só em último caso, por via intramuscular.
Pelo relógio: Os medicamentos devem ser administrados em intervalos regulares, de acordo com o tempo de ação de cada medicamento. A intenção é não permitir que o paciente sinta dor, independente de poder ou não tratar a sua causa. Também devem ser evitados testes do tipo suspender a medicação para ver se a dor passou. Diminuições de doses devem ser graduais, cuidadosas e bem observadas, sobretudo quando se empregam opióides.
Pela escada: A escada analgésica, também elaborada por especialistas da OMS, deve ser usada de acordo com a intensidade da dor, facilitando a escolha do melhor analgésico. De forma simples, uma dor leve requer o emprego de analgésicos não-opióides ou antiinflamatórios não-hormonais (AINH). Uma dor moderada ou não responsiva é tratada com a associação de um opióide fraco. As dores severas devem ser tratadas com o emprego de um opióide forte, somado ou não a um analgésico não-opióide ou AINH. Em todos os degraus e desde o início do tratamento o emprego de drogas chamadas de adjuvantes deve ser considerado.
Pelo indivíduo: O tratamento é dirigido à pessoa com dor. Suas características individuais, tolerância a medicamentos, adaptação a doses, horários e necessidades devem ser consideradas.
Atenção a detalhes: Avaliações contínuas que contemplem as características de um alívio parcial da dor e respostas específicas a mudanças de atitudes devem ser observadas. A distinção de fatores que desencadeiam uma crise dolorosa ou que a aliviam também é fundamental. Neste aspecto, o trabalho em equipe multiprofissional é de grande valia.
ANALGÉSICOS NÃO-OPIÓIDES
São analgésicos simples, que podem ser considerados para uso por período prolongado de tempo ou antiinflamatórios não-hormonais (AINH), usados para tratamento da dor leve ou como adjuvantes durante toda a escada analgésica. São eles:
a. Dipirona: Considerar seu emprego sem associações, a intervalos de quatro a seis horas, em doses que variam de 500 a 1.000 mg/dose.
b. Paracetamol: Tem ação de nível central, sem efeitos colaterais consideráveis e pode ser usado em intervalos de seis a oito horas e doses entre 500 e 750 mg. Tem certa hepatotoxicidade, sendo seguro o emprego de até 4,0 g/dia para hapatopatas. De qualquer forma, não ultrapassar o total diário de 6,0 g.
c. AINH: Lembrar sempre que estes medicamentos têm efeito-teto e não ultrapassar sua dose máxima. Usar preferencialmente os inibidores seletivos de COX-2, que têm as vantagens de expor a menos efeitos colaterais, dispensar associação de um protetor gástrico e serem usados em dose única diária, o que facilita a adesão ao tratamento. Eles são usados também como adjuvantes em dores associadas a processos inflamatórios, como a dor por metástases ósseas e por tumores cutâneos.
ADJUVANTES
São medicamentos de grupos farmacológicos variados que associados aos analgésicos têm ação específica ou potenciadora no controle de determinados tipos de dor. O emprego de adjuvantes deve sempre ser considerado e adequado ao tipo de dor a ser tratada. Sempre observar possíveis efeitos colaterais, às vezes aproveitando os benefícios que estes podem trazer. São adjuvantes:
a. Antidepressivos tricíclicos: São medicamentos que têm como principal mecanismo de ação a inibição da recaptação de serotonina, no corno posterior da medula espinhal, onde se dá a primeira sinapse do neurônio aferente. O seu emprego significa, portanto, uma diminuição da sobrecarga de informação que a via aferente conduzirá ao cérebro para posterior decodificação. As doses analgésicas costumam ser inferiores às usadas com ação antidepressiva e o início da ação ocorre entre três e sete dias. Costumam ter efeitos colaterais relacionados principalmente à ação anticolinérgica: sonolência, confusão mental leve, boca seca e retenção urinária. A sonolência indica seu emprego preferencial à noite. Pode ser útil também para o controle da sialorréia presente em alguns tumores. Por outro lado, são contra-indicados para pacientes portadores de glaucoma, prostatismo e taquiarritmias. São representantes deste grupo:
1. Amitriptilina: Apresentação em comprimido de 25 e 75 mg.
2. Nortriptilina: Apresentação em cápsulas de 10, 25, 50 ou 75 mg.
3. Imipramina: Apresentada em comprimido de 10 e 25 mg.
b. Anticonvulsivantes: São imprescindíveis no tratamento da dor neuropática e em alguns casos de dor crônica de difícil controle. Sua ação muito específica tem o dom de agir quase cirurgicamente para alguns pacientes. É o medicamento que, segundo a descrição de muitos, “tira a dor com a mão”. Costumam dar sonolência nos primeiros dias de tratamento e às vezes lentidão de raciocínio, lapsos de memória e um pouco de edema em membros inferiores. Sintomas de mais fácil controle que uma dor intensa, de características aberrantes. São mais usados na clínica de Cuidados Paliativos:
• Gabapentina: Disponível em cápsulas de 300, 400 ou 600 mg. O tratamento é iniciado com pequenas doses e a ação ideal é obtida com doses diárias que variam entre 900 e 2.400 mg. No máximo, usar até 3.600 mg/dia.
• Carbamazepina: Disponível em comprimido de 200 mg e deve ser usado a cada 12 horas, com doses diárias que variam de 200 a 1.200 mg/dia. Tem várias interações medicamentosas e diminui a ação de opióides como o tramadol.
c. Antiinflamatórios: Acompanham o tratamento da dor de origem inflamatória, que pode ser somática, como uma linfadenopatia, uma metástase óssea ou lesão cutânea; visceral, como uma distensão da cápsula hepática ou neuropática, como uma compressão medular, prontamente aliviada com o uso de antiinflamatórios esteroidais. Respeitar o limite dos AINH quanto ao seu efeito-teto é condição para uma boa terapêutica. Da mesma forma, estar atento a possíveis efeitos colaterais e sempre julgar a relação dano x benefício obtido pelo paciente.
d. Neurolépticos: São medicamentos com ação sobre a afetividade e que agem no sistema de modulação da dor, alterando sua percepção. Alguns pacientes têm benefício imediato com o uso de pequenas doses de neurolépticos. O haloperidol, a clorpromazina e a levomepromazina são muito usadas por terem efeito antiemético importante e útil na associação com opióides.
e. Outros adjuvantes: Considerar o uso de benzodiazepínicos ou miorrelaxantes quando há espasmo muscular; inibidores de canal de cálcio como a nifedipina para controlar tenesmos e outras dores espasmósticas; bifosfonatos de uso endovenoso aliviam a dor óssea e a quetamina usada por via subcutânea pode ser usada para dores que respondem fracamente aos opióides.
OPIÓIDES
Opióides são substâncias derivadas do ópio e são classificados em naturais ou sintéticos, de acordo com sua natureza química. Quanto à intensidade de sua ação farmacológica, são classificados em fracos ou fortes, sendo os primeiros indicados para a dor moderada e os últimos para a dor intensa ou severa. Combinam-se aos receptores opióides para produzir seus efeitos e são antagonizados pela naloxona.
A recomendação é clara: Usar apenas um opióide, escolhido por sua intensidade e tempo de ação, comodidade de via de administração, efeitos adicionais e colaterais.
As doses iniciais devem ser as mais baixas doses terapêuticas e os ajustes devem seguir uma progressão em média de 30% para mais ou para menos, até que se obtenha o desejado controle analgésico aliado a efeitos colaterais controláveis. Nunca suspender abruptamente uma prescrição de opióide sob a pena de levar o paciente a uma desagradável e perigosa síndrome de abstinência.
A substituição por outro analgésico deve sempre considerar a eqüipotência entre as drogas, evitando o risco de usar doses aberrantes para mais ou para menos.
Os efeitos colaterais mais temidos como a sedação e a depressão respiratória são raros com o emprego de doses justas e adequadamente ajustadas. Com exceção da obstipação intestinal, que deve ser medicada com dieta e laxativos, outros efeitos como sonolência, confusão leve ou euforia, náuseas/vômitos, boca seca, sudorese, tremores e mioclônus são controláveis e tendem a desaparecer em três a sete dias.
Todos os opióides são prescritos em intervalos regulares (pelo relógio), de acordo com seu tempo de ação.
a. Opióides Fracos
• Codeína: Deve ser usada em intervalos de quatro horas, independente do medicamento ao qual pode estar associado. Existe no Brasil em comprimidos ou solução oral, isoladamente ou associada ao paracetamol e ao diclofenaco. É potente antitussígeno e tem forte ação obstipante. As formulações existentes contêm 7,5, 30, 50 ou 60 mg de codeína. A partir de 360 mg/dia não há vantagem em empregar a codeína e esta deve ser substituída por um opióide forte.
• Tramadol: Opióide sintético ao qual se atribui ação moduladora sobre o SNC. Deve ser usado em intervalos de seis horas por via oral ou parenteral. A metabolização hepática é fundamental para o desencadeamento de sua ação analgésica. Portanto, as apresentações orais costumam ter biodisponibilidade até duas vezes e meia maior que a parenteral. Pode ser usado por via subcutânea de forma intermitente ou contínua. Não há sentido em se fazer diluições para uso endovenoso e esta via deve ser evitada porque o tramadol pode diminuir o limiar convulsivo de pacientes predispostos a convulsões. As apresentações orais podem ser em solução de 50 ou 100 mg/ml (25 gotas), comprimido de liberação imediata de 50 e 100 mg, comprimido de liberação lenta (12 horas) de 100 mg ou ainda comprimido de 37,5 mg, associado a 325 mg de paracetamol. A dose diária do tramadol não deve exceder 400 mg. Com relação à codeína, é menos obstipante, não tem ação antitussígena e é mais nauseante.
b. Opióides Fortes
• Morfina: Mundialmente, é o maior representante e o medicamento mais usado para o sucesso do controle da dor moderada a severa. É um medicamento barato e muito seguro quando respeitados intervalos de ação, uso regular e passos para o ajuste de doses. Médicos e pacientes têm medo e muito pouca informação sobre as possibilidades e vantagens do uso da morfina e de outros opióides fortes. Medo de adição, associação do uso à proximidade da morte e a crença de que o remédio forte só deve ser utilizado em pacientes terminais e quando a dor chegou ao limite do insuportável, são fatores que lamentavelmente contribuem para o sofrimento desnecessário de muitos doentes. O uso da morfina, assim como de qualquer outro opióide, forte pode ser diminuído ou interrompido quando a causa de uma dor foi controlada. Só precisa ser feito devagar, com diminuição de doses na mesma progressão do seu aumento. A morfina está disponível no Brasil sob a forma de solução oral e de comprimidos de liberação imediata, contendo respectivamente 10 mg/ml e 10 e 30 mg, para prescrição a cada quatro horas. Existem cápsulas de liberação cronometrada para uso a cada 12 horas com 30, 60 e 100 mg. Esta apresentação não deve ser usada por sonda enteral. As ampolas contêm 2 mg/ml ou 10 mg/ml e devem ser usadas preferencialmente por via subcutânea de forma intermitente (cada quatro horas) ou contínua em 24 horas.
• Fentanil Transdérmico: O fentanil é um opióide sintético de ação semelhante à morfina, porém administrado por via transdérmica sob a forma de um adesivo que proporciona liberação constante e regular do opióide ao longo de 72 horas e menores efeitos sedantes, nauseantes e obstipantes. Oferece o conforto terapêutico e a possibilidade de administração por uma via que pode perdurar até o final da vida, qualquer que seja a condição do doente. Ideal para os pacientes com disfagia, oclusões gastrointestinais, portadores de insuficiência renal ou hepática graves, usuários de sonda nasoenteral ou pacientes com altas doses diárias de morfina e com difícil controle de sintomas colaterais. Os adesivos contêm 2,5, 5,0, 7,5 e 10,0 mg de fentanil e proporcionam a liberação, respectivamente, de 25, 50, 75 ou 100 mcg do medicamento a cada hora. Deve ser prescrito em dose eqüipotente ao total de morfina oral usado em 72 horas.
• Oxicodona: A oxicodona é um opióide sintético com boa disponibilidade por uso oral e menos efeitos colaterais. Os comprimidos têm 10, 20 ou 40 mg e são fabricados no Brasil com dupla camada de liberação, uma imediata e uma lenta, o que possibilita o seu uso a cada 12 horas. Não pode ser quebrado ou amassado para a administração através de sondas.
• Metadona: A metadona é uma excelente opção para o controle da dor neuropática, mas pode ser usada com sucesso em qualquer dor forte, resistente ao emprego da morfina. Tem boa biodisponibilidade para uso oral. Porém, a meia-vida é longa, imprevisível e difícil de ser avaliada. Em geral, dura 24 horas, mas costuma variar entre dez e 75 horas. Deve ser utilizada preferencialmente por especialistas em Cuidados Paliativos, com ampla experiência em seu emprego.
O bom uso de todos estes recursos terapêuticos, no entanto, torna-se insuficiente quando a dor se reveste de todos os fatores ligados à existência do paciente e ao seu sofrimento atual, diante de uma doença que ameace a continuidade de sua vida e em qualquer fase desta doença – do diagnóstico e tratamento aos últimos instantes. Por isso, a abordagem sempre deve ser feita através de uma equipe de Cuidados Paliativos treinada e preparada para estes desafios.
A dor não controlada mascara a gravidade do caso, tira as forças do paciente para lutar pelos seus dias de vida e rouba o prazer de suas relações pessoais.
Tratar a dor não é só sublime e prazeroso, mas essencial para que se estabeleça uma relação de confiança entre o paciente, sua família, o médico e a equipe completa de cuidados paliativos.
REFERÊNCIAS
1. Faull C, Carter Y, Woof R. Handbook of Palliative Care. Blackwell Science. London 1998.
2. Doyle D, Jeffrey D. Palliative Care in the Home. Oxford University Press. Oxford 2000.
3. Twycross R, Wilcock A, Thorp S. Palliative Care Formulary PCF1. Radcliffe Medical Press, Oxford 1998.
4. World Health Organization (1996). Cancer Pain Relief. Geneva: WHO.
5. Doyle D, Hanks GW, MacDonald N. Oxford Textbook of Palliative Medicine, 2nd Edn. Oxford: Oxford Univbersity Press 1998.
6. Driver LC, Bruera E. The MD Anderson Palliative Care handbook. Houston, The University of Texas MD Anderson Center 2000.
7. Hanks GW et al. (2001). Morphine and alternative opiods in cancer in cancer pain: the EAPC recommendations. British Journal of Cancer 84(5), 587-593.
8. Kinzbrunner BM, Weinreb NJ, Policzer JS. 20 Commom Problems in End-of-Life Care. New York, McGraw-Hill 2002.