Texto retirado da versão eletrônica da revista Prática Hospitalar
Doença alguma justifica que aceitemos que um indivíduo conviva com dor ou outros sintomas que possam ser debelados, controlados ou aliviados.
Várias instituições de saúde têm investido na formação de equipes multidisciplinares especializadas no controle do sintomas, reconhecendo a multiplicidade de fatores biopsicossociais na etiologia e na manutenção dos sintomas em cuidados paliativos e dor e a necessidade de tratar criteriosa e globalmente o paciente o quanto antes.
A OMS preconizou o efetivo controle da dor e dos sintomas comuns em cuidados paliativos como das mais importantes prioridades no sistema de saúde pública, estimulando que cada governo o inclua no seu sistema de saúde, de modo a aliviar a dor e outros sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes, sendo a humanização uma ferramenta mestre para a obtenção do tratamento adequado (WHO, 1999).
A humanização evoca que o alívio da dor e o controle dos sintomas em cuidados paliativos devem começar desde o diagnóstico da doença crônica (oncológica ou não) até a fase avançada.
Humanizar é a garantia de atender às necessidades desse paciente; as equipes multiprofissionais reúnem médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e o serviço administrativo (recepção, triagem, segurança e transporte), enfim, todos são importantes para confortar o paciente e seus cuidadores.
Devemos distinguir tratamentos paliativos de cuidados paliativos; o paciente com dor e doença avançada, mas que ainda é elegível cirurgicamente e/ou para tratamento adjuvante, difere daquele ao qual só é possível oferecer algum tipo de conforto, mas sem controle da doença.
Os indivíduos são singulares e não podemos pretender que respondam da mesma forma às nossas intervenções, nem que mantenham uniformemente suas respostas a longo prazo.
Tratar um paciente requer não somente as considerações biológicas e psicológicas, como também as familiares, sociais, econômicas e aquelas que estão nas relações estabelecidas entre os sistemas envolvidos: o indivíduo e seu universo e o sistema de saúde e de tratamento, com suas múltiplas variáveis. Não basta controlar os sintomas, mas também o paciente e, além dele, os sistemas que com ele interagem.
Parece-nos que o paciente investe mais em sua melhora, mas também é mais investido, tanto pela equipe quanto pelos familiares. Parece que nós esquecemos e ele não acredita no caráter paliativo do tratamento, que só ficará evidente quando ele receber o rótulo de “paciente fora de possibilidades terapêuticas”, que tem o significado da desistência médica e/ou institucional em tentar reverter ou conter o avanço da doença, quando então cessarão os tratamentos, exceto os cuidados clínicos, os de enfermagem e aqueles oriundos de outras categorias profissionais. O grau de solidariedade com este paciente cuidável, geralmente desmotivado, que está em fase avançada da doença, normalmente com o passar do tempo diminui. Acreditamos ser um mecanismo natural de defesa, pois começamos a elaborar a idéia da separação, pela morte, antes mesmo dela chegar.
O sentimento de separação pode ocorrer de várias maneiras, desde o luto emocionadamente antecipado, quando no nosso lamento referimo-nos ao doente como se ele já estivesse morto, até atitudes que ao primeiro olhar poderiam sugerir frieza ou alienação.
Quanto aos doentes, há os que preferem estar rodeados por parentes e amigos e os que optam pelo isolamento, pelo recolhimento paulatino da vida (Miceli, 2001).
A humanização do atendimento envolve observar todos os aspectos ligados ao adoecer, o respeito aos temores, crenças e fragilidades dos pacientes e de seus familiares, além da ética na adoção das atividades técnico-científicas.
Estimular a integração da equipe técnica com os usuários promove uma diminuição na ansiedade e angústia; é uma das ferramentas para mudar a impressão negativa da população sobre o nosso sistema de saúde.
O sofrimento humano e as percepções de dor precisam ser humanizados, mas sem comunicação não há humanização, pois esta depende da capacidade de falar e de ouvir e do diálogo com os nossos semelhantes.
A tecnociência torna-se desumanizante quando o ser humano fica reduzido a um mero objeto despersonalizado de uma investigação fria e objetiva. Um hospital pode ser referência do ponto de vista tecnológico e ser desumano no atendimento.
O gerenciamento do processo de humanização deve ser monitorizado de forma profissional; devemos utilizar os indicadores tangíveis, como o consumo de morfina, a redução do quadro álgico, mensurar o óbito na residência e o intervalo das consultas ambulatoriais e domiciliares.
Os indicadores tangíveis têm como finalidade no nortear os gestores de forma objetiva, gerenciar as atividades existentes e acrescentar ações que qualifiquem a assistência oferecida aos pacientes e aos familiares envolvendo todos os profissionais nessas atividades.
A humanização em cuidados paliativos e dor tem o desafio de cuidar do paciente com competência humana e científica, reivindicando a necessidade da inserção de forma imperativa na saúde brasileira.
REFERÊNCIAS
1. World Health Organization. Cancer pain, palliative care and the world health organization: 2000-2002 priorities. Geneva 1999.
2. Stjernswärd J. Palliative Medicine – a global perspective. Oxford Textbook of Palliative Medicine, Oxford University Press 1993.
3. McCracken LM. Learning to live with the pain: acceptance of pain predicts adjustment in persons with chronic pain. Pain 1998;74:21-27.
4. Miceli PAV. Dor crônica e subjetividade em oncologia. Abstracts Congr Bras SBED 2001.
5. Pessini L. Distanásia - Até quando prolongar a vida? São Paulo, Loyola 2001.