Ser um agente de cura é favorecer a criação de um espaço curativo, pela utilização de técnicas e habilidades específicas aprendidas, com a convicção da existência de um poder auto-curativo inerente a cada indivíduo. Acima de tudo, é estar aberto a uma jornada de auto-conhecimento e auto-transformação, através de complexas interações.
Ao se falar de agentes de cura ou terapeutas, não estamos aqui falando em alguém que detém um saber único, dono de todas as respostas, capaz de remover a doença sem que seja necessário ao menos um esforço do outro, em direção á sua própria transformação interior. O agente de cura na visão aqui apresentada, é alguém que possui um conhecimento técnico específico e habilidades praticas desenvolvidas para auxiliar o outro a encontrar seus próprios potenciais de auto-cura, mas que compreende as limitações de seu papel. Em sua esfera de trabalho, lida mais do que com um corpo adoentado, mas com um ser em seu caminho de auto-transformação e auto-realização. O corpo é apenas uma parte, embora importante, deste conjunto harmonioso que é o ser. Assim a cura, mais do que a remoção dos sintomas, transcende o corpo e representa uma resposta responsável em direção à plenitude.
Terapeuta e paciente estão unidos por sua humanidade e conseqüente mortalidade. Mas em seu papel de agente de cura, disposto a lidar com suas próprias feridas, o terapeuta é um facilitador do processo do outro, despertando-lhe a sabedoria interior que reconhece o caminho da cura. É alguém que confia na existência da energia interna para transformação, aprimoramento e evolução espiritual, presentes em cada ser. Isto exige fé e também humildade do terapeuta em se colocar como intermediário e instrumento do Universo para ajudar a vida a fluir.
Reconhecer a energia curativa presente no outro é propiciar a formação de um vinculo terapêutico de responsabilidades compartilhadas. Desta forma, mais do que detentor de conhecimentos de técnicas e procedimentos, o agente de cura se transforma em co-terapeuta, favorecendo a não dependência e devolvendo ao outro a força e o entusiasmo pela sua própria vida. Tal relação possui o potencial de nos reaproximar das nossas próprias capacidades autocurativas, daquilo que há de sadio em nós, de nossos valores enquanto indivíduos atentos a outro ser humano.
Muitas vezes, o tratamento do câncer rouba ao paciente o poder de decisões relativas ao seu bem-estar, quando não e também acerca de sua vida. No papel de co-terapeuta, o agente de cura restitui e promove a liberdade de escolhas factíveis, o que propicia a formação de um campo energético de possibilidades de cura. Funciona ainda como catalisador do renascimento do ser, na medida em que auxilia a cura de feridas emocionais antigas e a expressão de sentimentos contidos de raiva, tristeza, rejeição, abandono e outros, unindo aspectos de sombra e luz. Para isto, pode lançar mão de todas as técnicas e recursos nos quais foi habilitado. Mas nada substitui um coração compassivo e amoroso, o qual é conquistado com o equilíbrio entre as dimensões física, emocional, intelectual e espiritual.
Para Elizabeth Kubler-Ross são quatro as qualidades fundamentais necessárias a um agente de cura: confiança no poder curativo presente em cada célula do corpo; fé em seu potencial de canalizar energias curativas através técnicas; humildade para perceber-se como um ser também em crescimento, para servir de canal ou intermediário para a energia curativa ou apenas como um catalisador do processo, além de reconhecer o saber do outro em relação a si mesmo; e amor a si mesmo, ao outro e a seu trabalho.
Talvez deva se acrescentar ainda, a compaixão na solidificação desta construção chamada cura. A compaixão pode ser o cimento que une confiança, fé, humildade e amor com as técnicas aprimoradas pelo estudo e dedicação. Através desta virtude representada pela vontade genuína de minorar o sofrimento do outro, abre-se um espaço sagrado de conexão, compreensão e presentificação da relação.
Assim, o trabalho de um agente de cura reflete sempre o trabalho que ele faz consigo mesmo, no cerne de sua humanidade. É o resgate do que há de mais humano e mais divino em si, com a coragem de amar sem apego. O relacionamento terapêutico envolve um ritual de intimidade, de expectativa positiva, de valoração do pessoal e do transpessoal e até mesmo, do toque amoroso. Estes constituem fatores vitais na cura não apenas do nível físico, mas também do emocional e espiritual.
Texto de Rita de Cássia Macieira, extraído do boletim da SBPO