Reflexões sobre a Morte e o Morrer nos Atendimentos Psicológicos de Cuidados Paliativos
24/8/2004
Texto de Vera Anita Bifulco - Psicóloga Clínica
A vida é criação de intensa sabedoria. Nada nela acontece que não seja fruto de um amadurecimento físico, mental e espiritual, a tríade donde o ser humano é formado.
Os ciclos vitais nos mostram isso. A puberdade é física, a adolescência é social. O envelhecimento é um processo lento, que nos acompanha desde nosso nascimento e finda com a nossa morte; mas o preconceito contra o processo de envelhecimento é social, e o ser humano é fruto dessa interação, física, mental, espiritual e social; um aspecto se interliga ao outro na busca por uma “homeostase”, que sabemos, só é total com a morte.
Na prática psicológica de atendimento domiciliar aos doentes fora de recursos terapêuticos de cura, nos vem a reflexão do quão a sabedoria se mostra nítida, clara em cada caso que atendemos.
A generalização é um erro, pois mesmo sabendo que algumas sintomatologias acompanham a regulação temporal da finitude, nos deparamos com reações distintas e singulares de paciente para paciente. Somos surpreendidos também por comportamentos inesperados, mas com o passar do tempo compreendemos que também eles faziam parte de um processo de espera que caracteriza a personalidade daquele doente.
É importante nos conscientizarmos sempre que cada pessoa tem uma história que antecede a sua história.
Não esqueçamos nunca que o doente leva o curso de sua doença dentro de um perfil psicológico que caracteriza sua personalidade como um todo e o acompanha em todos os processos de vida diária.
O doente conduz a doença, seu meio e seu fim, como conduziu o transcorrer de toda sua vida. Ele é o dono de seu corpo, a morada de sua alma, e no decorrer de toda uma vida, exceto em casos de circunstâncias externas à sua vontade, foi ele o responsável por suas escolhas.
É comum culparmos outrem pelo desfecho infeliz de alguma circunstância que nos acomete, mas se fizermos uma avaliação mais criteriosa, descobrimos que, de algum modo, nós propiciamos que isso ocorresse.
Enfatizo sempre que tanto a morte, aconteça ela em que estágio acontecer, quanto a vida, e nesta última incluo todos os seus estágios, da infância ao envelhecimento, são uma conquista que devíamos ter sempre em mente quando procuramos dignidade, respeito e, principalmente, a busca da tão almejada felicidade e plenitude de nossas realizações.
Somos os únicos responsáveis por nossas escolhas, e mesmo quando uma doença nos surpreende no transcorrer da vida, venha ela para uma fase terminal ou não, dependerá de nós, com vontade soberana, a condução de seu desfecho.
A doença como caminho acrescenta algo à experiência da humanidade, assim como o estudo da morte e o morrer acrescem consciência e sabedoria ao modo como vivemos.
“A dignidade que buscamos na morte tem que ser encontrada na dignidade com que vivemos” (Nuland, 1995).
Não é a doença que limita o corpo, é o medo.
A doença traz consigo a possibilidade de perda, assim como a morte.
Ao amar, o homem se apossa do objeto amado. Ele não sabe viver o significado sem a posse; é difícil, assim como é difícil aceitar a morte como fim da vida.
Nosso inconsciente não aceita um fim para nossa vida, é isto que torna o falar sobre a morte e o morrer um assunto tão doloroso.
O homem investe muita energia na tentativa de eternizar momentos de felicidade. Se ele se poupasse mais e entendesse que o que fica é a qualidade do que foi vivenciado, o valor do momento vivido, o significado que aquele determinado momento acresceu na sua vida, aí sim, o homem deleitar-se-ia com as lembranças que se somam ao crescimento interior.
Frente ao doente podemos nos questionar: Que lugar essa doença ocupa na sua história de vida? Em que fase de sua vida ela se desencadeou? Que conseqüências ela trouxe tanto para o doente como para o contexto familiar? e, finalmente, como o doente conduziu sua vida?
Montamos com esse instrumento um perfil de nosso paciente e será útil entender como se dará a evolução do caso. Nossa sociedade valoriza sobremaneira o ser que produz. A produtividade gera lucros econômicos, materiais. É a sociedade de consumo.
Dentro desta filosofia, o doente, o velho, o aposentado, o paciente moribundo, perdem lugar. O reverenciar a vida enquanto houver vida fica sem sentido. O sofrimento fica sem sentido; por conseguinte, a doença que acarretou tal sofrimento perde seu significado.
O valor à vida passa a ser diretamente ligado ao valor de produção. Nesse contexto, nosso paciente perde seu lugar, transforma-se num ônus, tanto para a sociedade como para a família.
É imperioso darmos um novo direcionamento aos critérios: qualidade de vida, valor à vida e significado de vida.
Centralizar nossos objetivos nestes três itens.
Atrás da doença há um ser humano que clama, não só pelo controle da dor e do sofrimento físico, mas pela valorização do ser humano que habita naquele corpo, com todas as limitações que a doença acarretou.
Dar condições ao doente de lidar com esta situação e redescobrir o sentido da vida dentro do momento que está sendo vivenciado por ele.
A doença e a morte trazem imbuídos estes propósitos, cabe a nós tentarmos decifrá-los. Se assim o fizermos, nosso crescimento e entendimento serão acrescidos de sabedoria e a evolução se fará presente.
Lembrar sempre que, enquanto nosso corpo é perecível, nossa consciência não o é.
A qualidade de vida como objetivo que permeia nosso atendimento multiprofissional nos coloca sempre frente a esse universo imensurável que somente a experiência prática no atendimento aos pacientes fora de recursos terapêuticos de cura nos proporciona, pois cada caso é um caso, ímpar na sua singularidade, porém rico para o entendimento, compreensão e condução de outros casos.
É pouco o que damos em troca do muito que recebemos com cada paciente. Eles são fonte inesgotável de ensinamentos. Agradeço humildemente a cada paciente pela possibilidade de acompanhar e estar a seu lado, nesta experiência única e total com sua finitude, onde o órgão afetado pela doença deixa de ser o item básico, dando lugar ao protagonista, nosso paciente, em todo seu processo de doença física, mental, espiritual e social.
Transcrevo aqui uma citação, que considero extremamente significativa dentro da sabedoria do viver e do morrer:
No dia em que a morte bater à tua porta
Que lhe oferecerás?
Porei diante de minha hóspede o vaso
cheio de minha vida.
Não a deixarei ir de mãos vazias...
Rabindranath Tagore
Espero que ao ofertar a morte com um vaso cheio de minha vida, leve junto a certeza de que nada ficou a se arrepender ou inacabado, mas a garantia de ter se arriscado plenamente em prol do amor e da felicidade.
A morte estabelece um limite em nosso tempo de vida, seu significado deveria ser o estágio final de crescimento; aprendemos e sentimos até o último minuto de nossa vida, por isso devemos reverenciar a vida enquanto houver vida, pois ela é fonte de aprendizado e amor.
A evolução da humanidade deveria se basear nesse processo de vida e morte, e o ser humano buscar sempre o significado para cada átimo de sua existência.
Morrer não é um castigo, é o acabamento final da vida, e não é necessário sofrer nem ficar só para morrer. A morte deve ser envolvida pela serenidade, paz e dignidade, os mesmos quesitos que almejamos enquanto vivos.
Através de nossos atendimentos e na condução de nossos casos, é isso que vemos acontecer, para nossa grata satisfação. Nossos pacientes, com raríssimas exceções, seguem até seu desfecho final, no aconchego de seus lares, rodeados por familiares, nunca sozinhos, e mantendo a referência de seu meio num contínuo de cuidados que visa o acolher, preservar, acarinhar e dar condições físicas, mentais, espirituais e sociais para um desprendimento sereno e em paz.
Atitudes que devem ser preservadas nos atendimentos de cuidados paliativos
- Deixar o paciente falar.
- Quando não há o que ser dito, o silêncio fala por si próprio.
- Vale mais o olhar, o segurar a mão, o afagar uma cabeça, a garantia de saber que não se está sozinho numa hora que envolve tanto mistério.
- O paciente sabe mais o que é melhor para ele que nós, ele sabe mais que ninguém sobre ele mesmo.
- Sua vontade é soberana.
- Nunca negar a esperança. Ela é um direito soberano do paciente até seu último minuto de vida.
- Devemos reverenciar a vida enquanto houver vida, como princípio ético.
- Aceitar o paciente dentro de sua individualidade. Ele pode ser diametralmente oposto a nós, isso não deve alterar em nada minha conduta.
- Não estamos para julgar, mas para acolher e cuidar.
Referências
Nuland SB. Como morremos - Reflexões sobre o último capítulo da vida. Rio de Janeiro: Rocco Editora, 1995.
Alves R. O Médico. Campinas, São Paulo: Papirus Editora, 2002.
Lown B. A Arte Perdida de Curar. São Paulo, JSN Editora Ltda 1997.
Ross EK. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes Editora, 1998.
Ross EK. Morte Estágio Final da Evolução. São Paulo: Record Editora, 1975.