Cada vez mais, as pessoas têm dificuldade em falar e vivenciar a morte; os rituais de luto estão sendo segregados as CTIs de hospitais e às salas de velório, organizadas de forma a tornar o contato com o morto (e a morte) o mais indolor possível. A sociedade de consumo tenta dar à morte - ampliando o tabu que a envolve – uma nova embalagem mais ascética e aceitável procurando contornar seu impacto, amenizar seu significado, reduzir os transtornos que possa acarretar.
Mas a morte e o ritual de luto que a ela se segue estão permanentemente presentes em nosso cotidiano, pois vida e morte não podem ser separadas. Mais ainda em tempos de guerra, como os atuais, em que ela freqüenta de forma assustadora os noticiários sobre pessoas aos milhares morrendo em atentados terroristas ou nos campos de batalhas no Afeganistão e da Palestina. A guerra bacteriológica - epidemias de antraz e outros micróbios - salta da ficção para a realidade.
Uma guerra lamentável instaura o sentimento de pânico e luto coletivo. Mas a sociedade de consumo não sabe e não quer saber lidar com isso: ‘’tudo o que vivemos cabe em determinado tempo e com a morte acaba-se a possibilidade de continuarmos a existir, ao menos nessa forma que conhecemos. O homem moderno, voltado para produção e para o consumo, valoriza o fazer e o ter mais do que ser. E a morte elimina isso'', Maria Helena Franco Bromberg, uma das primeiras psicólogas a tratar da questão do luto no Brasil e atualmente coordenadora do laboratório de estudos e intervenções sobre o luto da PUC SP, LELu, e membro do Instituto Quatro Estações – instituto de psicologia.
O avanço da ciência e do tecnicismo fizeram com que crescesse no mundo contemporâneo uma cultura de negação da morte: ‘’Observando a história, percebemos que esse tabu foi constituindo no decorrer dos últimos oito séculos e, mais aceleradamente a partir do Renascimento da Revolução Industrial. A morte como solenidade pública e coletiva vai se transformando na morte de alguém fechado e isolado na CTI de um hospital. Na Idade Média, as sepulturas ficavam na igreja estando ao mesmo tempo no centro da vida social", analisa o antropólogo Jose Carlos Rodrigues professor da PUC RJ, autor do livro ‘’O Tabu da Morte’’.
Esse processo de negação da morte deixa evidentemente, seqüelas graves na psique do chamado ‘’homem moderno’’. Seus sintomas manifestam-se de diferentes maneiras, indo de simples negação até o pavor estremo que causa depressões, as chamadas síndrome de pânico e outros tipos de disfunções: "Um dos temores mais fortes no ser humano é o da morte, que pode ser multifacetado. Pode-se ter medo do processo de morrer, do que vem depois, do que vai acontecer com o corpo; ou ainda de morrer cedo demais, de não ter dado assistência as pessoas que precisam etc. Enfim, pode ser multidimensional. Isso pode estar muito ligado ao que chamamos corriqueiramente de síndrome de pânico. A pessoa sente essa falta de controle e vulnerabilidade", relaciona Maria Julia Kovács, coordenadora do laboratório de estudos sobre a morte do IPUSP.
O principal abrigo das pessoas para o absorver as dores de suas perdas tem sido historicamente as religiões, a espiritualidade - sustentadas em dogmas e intuições irracionalizáveis, em contraponto à racionalização cientifica. ‘’Existem dois caminhos contraditórios: de um lado temos o primeiro, que esta na ciência, que trabalha no sentido de derrotar a morte. Por outro lado, temos a espiritualidade, que tem a função de transcender a morte. Além disso as religiões oferecem explicações que são aceitas ou não. São dois campos nos quais se fala de morte.
Mas não podemos deixar de lembrar a diferença existente entre religião e espiritualidade. A primeira oferece determinados rituais, significados e respostas que tentam explicar o mundo. A espiritualidade também é um caminho para o ser humano se entender com a morte, sem que isso signifique entrar na moldura da religião‘’, comenta Maria Helena Franco Bromberg. A morte não é o único fator que pode desencadear um luto, que em um sentido mais geral, quer dizer perda: desilusões amorosas, perda de emprego ou aposentadoria, falência de um negócio. Toda perda grave gera um luto: ‘’A perda é uma das situações mais traumáticas da vida de um ser humano.
O luto é a perda de pessoas próximas ou de situações que tem uma relação de vínculo conosco; há uma grande carga energética vinculada. É um processo de elaboração para que essa ferida sare. É muito importante a pessoa realizar que de fato a perda ocorreu’’, afirma Maria Julia Kovács. O processo de "elaboração de um luto" segue um roteiro de fases: entorpecimento (período onde a pessoa não realizou o fato); anseio procura; desorganização; início da percepção; reorganização. ''Essa divisão tradicional ensinou entender o luto, mas atualmente se busca observar mais os 'padrões' de comportamento, com um enfoque no indivíduo, do que referências cronológicas. Trabalhamos muito mais com uma construção de significados para determinada morte, para sua vida antes e depois daquela morte/ perda‘’, analisa Maria Helena Franco Bromberg.
As conseqüências de um luto mal elaborado manifestam-se de diversas formas. ‘’O que mais chama a atenção não é o sentimento em si, mas a sua duração e a intensidade. É natural que as pessoa se sintam tristes ou até tenham um quadro de depressão, mas por um determinado tempo. Quando isso fica perene, então há um sinal de que a coisa não anda bem e que se tem um quadro patológico. Freud levantou a tese de que certas pessoas tem uma disposição de 'animo patológico'. Dessa forma, uma situação de luto pode se tornar a complicada'', comenta Maria Julia Kovács.
''Algumas circunstâncias podem tornar mais traumático o processo de luto em casos de morte. ''Suicídios, acidentes, perdas de filhos, múltiplas perdas, pessoas solitárias, condição de vida precária são algumas circunstâncias que fazem supor uma possibilidade de complicação no luto'', ela complementa. Apesar do avanço tecnológico, o aumento da violência tem paradoxalmente banalizado a presença de morte no nosso cotidiano, vitimando em particular as camadas sociais excluídas do mercado de consumo.''Nas classes mais populares, em que a morte e uma coisa mais comum por violência ou precariedade de vida, as pessoas tendem a se habituar e a gerar anticorpos'', compara Jose Carlos Rodrigues.
Esse fato acarreta em danos para o processo de elaboração do luto. ''Essas situações trazem um grave risco para que as pessoas desenvolvam um luto complicado, pois muitas vezes elas são sobreviventes da violência que aumentou assustadoramente. Como as pessoas tem de se defender, acabam não se importando mais'', continua Bromberg. Uma metrópole como São Paulo apresenta contradições enormes. Num contexto de enormes desigualdades sociais, chacinas, seqüestros e homicídios tornam-se rotina: ''Estão se mesclando varias mentalidades em relação a morte. Por um lado, preserva-se mais a vida das pessoas que tem acesso a ciência, que estão envelhecendo e vivendo mais tempo. Por outro, vivemos um paradoxo: muitas crianças e jovens sofrendo mortes violentas'', alerta Maria Julia Kovács.