Em busca da “boa morte” - uma investigação sócio-antropológica sobre cuidados paliativos
5/5/2004
Tese da Dra Rachel Aisengart Menezes - raisengartm@terra.com.br
Resumo
O objetivo desta tese é investigar a proposta de construção de novas representações sociais da morte, a partir de um conjunto de práticas e discursos denominados Cuidados Paliativos. No final da década de 1960 surgiu um movimento de oposição à prática médica tecnologizada, na qual o doente era excluído do processo de tomada de decisões relativas à sua vida e, em especial, à sua própria morte.
Os Cuidados Paliativos postulam uma nova forma de assistência ao período final de vida de doentes diagnosticados como “fora de possibilidades terapêuticas” e fundam uma nova especialidade médica voltada especificamente para esta categoria de pacientes. As equipes de unidades de Cuidados Paliativos propõem-se a atender à “totalidade bio-psico-social-espiritual” do doente e seus familiares, minimizando a dor e dando suporte emocional e espiritual a todos os envolvidos no processo do morrer. Este acompanhamento busca produzir uma “boa morte”, segundo modelo preconizado por seus ideólogos. A partir de observação etnográfica de congressos e de uma unidade pública de Cuidados Paliativos no Rio de Janeiro, esta tese desenvolve uma análise do processo de construção de identidades de profissionais, doentes e familiares.
A etnografia constatou a transmissão pedagógica de valores e de significados atribuídos à morte e ao morrer pelos profissionais, bem como a formulação de novos comportamentos adequados aos atores sociais. O estudo evidenciou a importância dada, pela equipe, ao controle das circunstâncias do morrer, conduzindo à produção de uma imagem pacificada da morte. A análise da transformação em curso das representações sociais da morte revela um processo social e cultural complexo, perpassado por tensões e conflitos entre profissionais, doentes e seus familiares.