Quinta-Feira , 9 de setembro de 2010

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Morrer com dignidade é decorrência do viver dignamente

26/4/2004

Texto de autoria do Padre Leocir Pessini - Professor Doutor em Bioética no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Bioética do Centro Universitário São Camilo

"É melhor a morte do que uma vida cruel, o repouso eterno do que uma doença constante”...Eclo 3, 1-2

Buscamos incansavelmente a felicidade de viver muito tempo com dignidade, e não apenas sobreviver. Fazemos de tudo para combater a doença, a dor, o sofrimento e vencer a própria morte. Estamos cada vez mais aparelhados pelas inovações tecnológicas nessa empreitada. Num lance de “ilusão utópica” podemos até, estrategicamente, negar a realidade do morrer como não fazendo parte de nosso existir e agir como se fôssemos imortais em nossa existência eterna. Pura insensatez, porque morremos e clamamos por dignidade nesse momento.

Ouvimos freqüentemente de doentes em fase terminal que eles não têm tanto medo de morrer, mas sim de sofrer. O que temem é o processo marcado pela dependência e dor não aliviada, que associam à doença. Enquanto a dor física é a fonte mais comum do sofrimento, o sofrimento ligado ao morrer vai além do mero nível físico, atingindo o todo da pessoa. Para eliminar a dor, ou pelo menos aliviá-la, exige-se medicamentos analgésicos mais para cuidar do sofrimento. É necessário um horizonte de significado e sentido, em que os valores sócio-culturais e religiosos são fundamentais.

Ao se negligenciar a distinção entre dor e sofrimento, a tendência dos tratamentos é de se concentrarem somente nos sintomas físicos, como se somente estes fossem a fonte de desconforto. Esta perspectiva é que permite continuar agressivamente tratamentos fúteis, na crença de que enquanto o tratamento protege da dor física, ele protege também de todos os outros aspectos, ignorando que o sofrimento tem que ser cuidado nas suas várias dimensões: física, psíquica, social e espiritual.

Pede-se para morrer e ser ajudado para tal por causa da dor e do sofrimento sem perspectivas e “vida diminuída” sem perspectiva de futuro. Busca-se como saída a legalização da eutanásia, que somos contra, mas não podemos ignorar que a questão precisa ser estudada e debatida. Olhando para nossa realidade, o desafio maior é de considerar a dignidade no adeus à vida para além da dimensão biológica, no contexto médico hospitalar, ampliando o horizonte e integrando a dimensão sócio-político-relacional. Somos emocionalmente envolvidos por casos dramáticos divulgados pela mídia, que anunciam o direito de todo ser humano a ter uma morte feliz, sem dor, em paz.

Este não deixa de ser um ideal a ser nobremente atingido. Perguntamo-nos qual o significado de tudo isso diante da morte violenta de milhares de seres humanos por acidentes, violência e péssimas condições de vida em nossa sociedade. Existe muito o que fazer no sentido de levar a sociedade a compreender que o morrer com dignidade é decorrência do viver dignamente. Se não existe condição de vida digna, no fim do processo garantiríamos uma morte digna? Antes de existir um direito a “morte humana”, há que ser garantido um direito a uma “vida humana” e não somente sobrevivência sofrida. É chocante, e até irônico, constatar situações em que a mesma sociedade que negou o pão para o ser humano viver, lhe oferece a mais alta tecnologia para “bem morrer”!

Não somos doentes e nem vítimas da morte. É saudável sermos peregrinos. Não podemos aceitar passivamente aquela morte que é conseqüência do descaso pela vida, causada pela violência, acidentes e pobreza. Frente a esta realidade, é necessário cultivar uma santa indignação ética e um compromisso com a vida vulnerável. Podemos ser curados de uma doença classificada como sendo mortal, mas não de nossa mortalidade e finitude humanas. Esta condição de existir não é uma patologia! Quando esquecemos isso, acabamos caindo na tecnolatria e na absolutização da vida biológica pura e simplesmente. Insensatamente procuramos a cura da morte, e não sabemos mais o que fazer com os pacientes fora de possibilidades terapêuticas. Instala-se então a distanásia, adiando a morte inevitável em que os instrumentos de cura facilmente se transformam em ferramentas de tortura!

Entre dois limites opostos, de um lado a convicção profunda de não abreviar intencionalmente a vida (eutanásia), de outro, de não prolongar o sofrimento e adiar a morte (distanásia). Entre o não abreviar e o não prolongar, está o desafio de cuidar do sofrimento. Como fomos cuidados para nascer, precisamos também ser cuidados para morrer. A vida humana, no seu início, bem como no final, é total vulnerabilidade que nos convoca ao cuidado máximo.

Aqui, a palavra de ordem é solidariedade, que não é paternalismo. Cicely Saunders, fundadora da moderna filosofia de cuidados paliativos, diz: “o sofrimento humano somente é intolerável quando ninguém cuida”. Pergunto-me humildemente, sem ter resposta, por que no caso Vincent Humbert (França, 2003), todas as expressões de cuidado, até de sua própria mãe, por desejo próprio o levaram para a morte e não a continuar viver re-significando sua vida.



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