Terça-Feira , 7 de setembro de 2010

Email: Senha:    |    Registre-se



Religião X Medicina X Administração: Quem tem o poder?

4/3/2004

Este texto é de autoria de Fabiano Araujo - fjar@terra.com.br

Quando falamos em saúde, é de fundamental importância observarmos a evolução que ela teve ao passar dos séculos. A idéia de promover saúde passa pela mão de muitas ciências, sofrendo assim significativas mudanças. Quando pensamos em saúde, nós acabamos avaliando a maior dádiva de Deus, a criação do ser humano, é lidar com seu próprio eu, a própria evolução do homem.

Como sabemos existe uma grande associação que não podemos deixar de fazer, de que quanto mais evoluímos, mais temos a tendência do surgimento e da criação de novos vírus, pragas e doenças, feitas ou não para o uso de nações e povos em guerras, para destruição em massa, por motivos religiosos, culturais ou de ganância e poder. A partir daí as pessoas começam a se dar conta de que é de fundamental importância observarmos este grande fato que assombra a humanidade a anos. Pois a idéia que se tem nesta época é que a partir da identificação de doenças infecciosas, crônicas, agudas e terminais, o homem começa a se organizar de uma maneira para isolar os indivíduos contaminados da sociedade saudável, como forma de proteção. Este fato faz com que a história do controle ou administração da saúde começasse a criar um modelo de atenção aos doentes.

No início da história, a grande preocupação das pessoas que cuidavam dos doentes, entre elas freiras e caridosos, era que ajudando o próximo estariam em contato com Deus, ou que pagariam seus pecados para com o Senhor. As funções mais realizadas com os doentes nesta época eram de higiene, alimentação e muita reza, (uma morte com tranqüilidade de espirito). Um dos maiores custos de hospitalização desses enfermos eram representados pelos encargos hoteleiros, e em especial em alimentação (mais de 50%), que nesta época não se tinha o pensamento de promover a saúde, mas sim de impedir que as doenças se propagassem.

Esses chamados refúgios ou albergues para doentes eram construídos fora dos muros das cidades, em lugares bem afastados, evitando qualquer contato com as pessoas sadias, e eram mantidos por censos, arrendamentos, dízimos, ofertas, esmolas, doações e etc.

Em suma, estas instituições viviam em grande parte da caridade dos ricos, preocupados em conseguir a salvação eterna através das boas obras prestadas em vida aos pobres, "irmãos em Cristo", mas também empenhados em exibir os seus sinais exteriores de riqueza. Podemos dizer que quem tinha o poder nesta época eram as freiras e os voluntários, pois eram eles que cuidavam e praticavam a função do hospital, com o pensamento de evitar ao máximo a propagação das enfermidades.

Mas se eram os religiosos que cuidavam dos pacientes, que papel tinha o médico nesta época? Se o médico era a pessoa que detinha o conhecimento, como ele entraria num lugar onde a doença se propagava, com o perigo de contaminar-se, tendo assim a dependência da sociedade sobre seu conhecimento?

Isso porque os médicos que tinham suas formações através de livros, documentos e o próprio convívio com nomes renomados da época na área da saúde, faziam suas visitas a esses ambientes muitas vezes escondidos, e chegavam a avaliar 400 a 500 pacientes por dia, pois o tratamento com esses profissionais se referia apenas ao uso da alta sociedade.

Quando falamos que a saúde acompanha a evolução do homem, concluímos que ainda temos muito a evoluir na prática da medicina, e então vemos que, historicamente, a força começa a mudar de mão, a perda do poder da religião para a ciência médica, fato que demonstra uma nova visão na prática em saúde. Este novo período demostra claramente o modo com que o ser humano começa a valorizar o homem como seu ente mais próximo, demonstrando grande preocupação não só com sua saúde, mas sim com a maneira que ele irá morrer.

Pode-se dizer que as guerras tiveram papel fundamental para a evolução do conceito em se promover a saúde. Uma ocorrência de grande importância foi a evolução do combate do homem contra homem, enquanto nas guerras da época eram usadas espadas lanças, machados e porretes o homem acabava se qualificando como um só, o de estar presente em um campo de batalha, ou de oferecer coragem por uma ideologia, religião, cultura ou nação.

Com o passar dos séculos, o homem começa a evoluir não só na sua maneira de viver, mas também no modo de lutar. Um dos grandes fatos que ajudaram a mudar a maneira de promover a saúde foi a invenção do fuzil. O homem que estava acostumado a lutar em aglomerados de pessoas com armas de mão, vê a sua frente um forma de matar em quantidades maiores, e ainda sem se aproximar do seu próprio inimigo. Mas ao mesmo tempo que marca a evolução da criação de uma nova arma, ele também se sente na obrigação, ou por questão de vida ou morte, de se moldar para enfrentar esta nova ameaça.

E então como competir com esta nova invenção? Deveriam agora lutar sozinhos para evitar uma destruição em massa? Verdade é que toda essa demonstração de evolução, tanto tecnológica como estratégica, é para confirmarmos que a evolução do homem acompanha a evolução da saúde. Desde a invenção do fuzil , o homem começa a valorizar o dom da mira, da rapidez que se carrega o estopim da arma, a maneira de se colocar em um campo de batalha para atirar e suas características de guerra.

Isso mostra agora que ele não possui apenas a coragem mas sim, algo de qualificado junto a ela, este é um dos fatos que marca a perda do poder da religião para a medicina. Seria apenas este fato, de se tornar mais qualificado?

Pode não ser o único, mas sim de grande importância, pois o homem começa a valorizar esta qualidade ou dom, como era visto nessa época e seu pensamento muda sobre como deve ser tratado aquele que se contamina em guerra, que se mutila, que passa a ser hóspede desses refúgios ou albergues. Ele vê, de uma certa maneira, que aquele que se qualifica, que luta, que enfrenta seu inimigo por sua nação não deve morrer atirado em um lugar qualquer, mas sim em combate como um verdadeiro guerreiro.

Aí então a medicina começa a colocar em prática o pensamento de que se é possível recuperar e até mesmo inserir novamente este homem na sociedade. Começa-se a praticar a ciência da pesquisa para o tratamento de sinais de enfermidades similares, procedimentos cirúrgicos para homens mutilados, baleados e com epidemias e doenças adquiridas em campo de batalha. Agora se é o médico que tem o conhecimento de curar, quem detém o poder da saúde, o próprio conhecedor dela, o médico.

Em cima desses fatos, os médicos começam a adquirir esta função importante dentro de qualquer estabelecimento que se queira praticar o ato de se promover a saúde, não importando qual especialidade este profissional vá exercer. Agora com o caminho aberto para evoluir e qualificar o atendimento assistêncial ao enfermo, este profissional só tem que se preocupar em acompanhar a evolução das doenças e pragas para estar sempre bem informado e prevenido para combatê-las, de uma maneira a eliminá-las.

Assim, se podemos ver a passagem das duas maiores ciências pelo poder da saúde, como viria a terceira, que necessidade essas práticas ainda teriam ?

Podemos continuar com os próprios marcos históricos, pois a partir do fato em que a ciência da medicina começa a recuperar e dar condições aos seus doentes de recolocalos na sociedade, imaginamos que automaticamente o numero de pacientes deva aumentar, isso porque se antes de 10, morriam 10, com a prática este numero poderia cair até 70%, e a permanência dos enfermos assim seriam maiores, pois todo o homem começava a receber atenção médica, e todo o tipo de doença começava a valer a pena de ser estudada, assim se, possível, que se pudesse dar o máximo de atenção ao cuidado delas.

Um dos pontos importantes a serem abordados é quando este tratamento começa a dar lucro a quem o pratica, no momento em que se é visto que este problema de saúde não assombra apenas a classe pobre da sociedade e sim aqueles que poderiam pagar para obter este atendimento, a medicina começa a ser um meio rentável. A evolução parece estar presente depois que o homem vê que não há limites para alcançar, com o número cada vez maior de pessoas necessitando cuidados, ele por si só começa a sentir a necessidade de maior espaço para trabalhar, maiores incentivos para compra de remédios e equipamentos para atender os doentes, verbas para pesquisa e estudo de novas doenças, a concorrência com os demais médicos depois que isso se torna uma atividade rentável, a necessidade de aprimoramento em novas técnicas cirúrgicas e de controle de infecções. E tudo isso, será que o médico estaria preparado para dar toda essa nova estrutura à área da saúde, será que o poder por ela estaria mudando de novo?

Sim, é neste momento que uma nova ciência toma parte, a do administrador, o profissional que poderia dar base para o médico atuar, o homem que saberia investir este dinheiro que girava com a prática do atendimento assistêncial, a pessoa que seria capaz de criar novos refúgios que agora já começavam a ser chamados de hospitais, que poderia auxiliar na pesquisa ou dar condições para serem feitas. O Administrador tem fundamental importância, pois a partir de seu ingresso a prática da saúde, ela começa a ser vista como um serviço a ser prestado, estratégias são criadas, planos e práticas de atendimentos são estabelecidos, visão e missão são conceituados, normas e padrões de qualidades são cobrados dos prestadores de serviço, rotinas são implantadas, e as instituições são criadas, fato que até hoje não para de ser exercido.

E esta com certeza deve ser uma tendência a não parar de crescer, estamos numa época em que aparelhos salvam vidas, órgãos são implantados, membros do corpo são criados. Não seria errado dizer, em nenhum momento que a medicina é uma das ciências que mais se desenvolve ao longo do tempo. Tecnologias são descobertas todos os dias, os médicos já são capazes de operar do outro lado do mundo através de câmeras de vídeo, já é possível prever se uma criança terá ou não probabilidade de ter uma tal doença ou alguma deficiência antes mesmo de nascer.

Com todos esses fatos que acompanham a história, pode-se dizer que para um sistema de saúde que queira ter qualidade, seriedade e compromisso não apenas profissional, mais humano com o doente, só poderá ser realizado com a junção dessas três ciências, pois nenhuma delas é capaz de preencher todos esses requisitos, então cabe ao profissional que guia tal instituição trazer este equilíbrio, pois se não houvesse a religião certamente não se teria a compaixão pelo próximo, assim não teríamos a medicina, e caso não houvesse a medicina quem iria atender os doentes e assim para que precisaríamos de administradores, e se juntássemos tudo isso em uma só profissão, caberia ela ter um curso de 15 ou 20 anos, e assim uma só pessoa conseguiria executar sozinha tais funções, claro que não.

Agora será que alguma outra ciência tentará tirar o poder sobre a saúde, isso não podemos afirmar, mas podemos refletir sobre a evolução do homem, pois se ela não pára, será que teremos que nos preocupar com novos vírus, pragas, doenças, ou será que a própria ganância do homem pode dar fim ao seu reinado?

Considerações Finais: Uma coisa é certa, as guerras cada vez são mais eminentes, o homem cada vez aumenta a busca pelo poder, religiões são colocadas como motivo de destruição, culturas são mudadas, agora se tirarmos como base esses fatos históricos, será que não seria hora de começarmos a nos preocupar com novas doenças similares ao câncer, aids, ebola, doenças que levaríamos anos, até séculos para descobrirmos a cura, fazendo pensar que se lermos desde o início este texto, seria de se esperar que novas enfermidades estejam por vir.



| Início | Notícias e Eventos | Artigos Científicos | Como se Associar |
| Fórum | Serviços | Links | Email | A ABCP |