Terça-Feira , 7 de setembro de 2010

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Terapia da dor e cuidados paliativos em pacientes com câncer - conceitos

3/6/2003

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 50% dos futuros pacientes com diagnóstico de câncer irão evoluir para o quadro de fora de possibilidade de cura. Mesmo em fase terminal, a qualidade de vida desses pacientes pode ser mantida em níveis satisfatórios, através de técnicas utilizadas em Medicina Paliativa

Algumas doenças degenerativas, particularmente o câncer, apresentam sintomas decorrentes da patologia de base, muitas vezes insuportáveis, confinando os pacientes que evoluiram para o estágio terminal a um modus vivendi fora de qualquer condição aceitável dentro da medicina atual.

Não há dúvidas que a medicina moderrna tem travado e vencido muitas batalhas na guerra contra o câncer, mas há um universo considerável de doentes para os quais essa luta não faz o menor sentido, já que as principais conquistas se aplicam numa fase inicial da doença. Para esses pacientes, fora de qualquer possibilidade de cura, resta o sepultamento em vida e o confinamento a um leito, sofrendo os efeitos colaterais de um mal incurável.

Dados da OMS revelam que 80% dos portadores de câncer avançado terão dores intensas e insuportáveis na fase terminal da doença. Outros sintomas como tosses, soluços, diarréias persistentes, ulcerações tumorais com mau cheiro, vômitos incoercíveis, infecções micóticas orais e bacterianas secundárias do tumor e do trato gastro intestinal, entre outros, também estarão presentes na fase terminal.

A Medicina Paliativa tem dado importante contribuição na amenização desses sintomas. A definição mais aceita no meio clínico para medicina paliativa é exatamente aquela encontrada nos dicionários médicos para o termo paliativo (do latim palliatus: encobrir, mascarar; de palliun, manto, capote, disfarce): que alivia, que mitiga, mas não cura.

Sem a pretensão da cura (pela sua impossibilidade), a meta principal é proporcionar o máximo conforto possível, dentro da vida remanescente do doente, dando ênfase ao controle adequado destes sintomas e aos aspectos emocionais, espirituais, sociais e familiares do paciente.

Uma das maiores autoridades mundiais no assunto, o Dr. Robert Twicross, catedrático da Universidade de Oxford e chefe dos programas educativos da OMS, nesta área, definiu assim a medicina paliativa: "Medicina Paliativa é uma atividade que visa tão somente maximizar a qualidade de vida remanescente de pacientes fora de posssibilidade de cura e de seus familiares, usando técnicas que aumentam o conforto mas não aumentam nem diminuem a sobrevida do doente".

O universo de pacientes assim classificados representam 85% dos casos que tem necessidade de cuidados paliativos. Os demais são portadores de moléstias neurológicas degenerativas e progressivas, como o Alzheimer, Koréias, Miopatias graves que evoluem para o óbito ou moléstias reumáticas graves em fase terminal.

Baseada em técnicas desenvolvidas especificamente para pacientes terminais, a Medicina Paliativa pode proporcionar alto grau de qualidade da sobrevida, já que ela não visa a mudança da história natural da doença em si, mas as complicações, intercorrências e sintomas desconfortantes que essa moléstia vai produzindo no decorrer da sua evolução.

"O controle adequado de sintomas decorrentes do câncer é a principal meta. Dependendo do tipo de tumor, da sua localização, do tamanho da massa e da idade do paciente, ele vai ser mais ou menos produtor de desconforto. São estes fatores que irão influenciar num maior ou menor grau de sofrimento físico", explica o Dr. Antonio Carlos de Camargo A. Filho, chefe do Centro de Terapia da Dor e Medicina Paliativa do Hospital Amaral Carvalho, de Jaú, São Paulo.

A carga de cuidados paliativos é normatizada pela própria OMS: quando o paciente está numa fase de tratamento curativo, ele recebe pouquíssimos ou nehum cuidado paliativo. Na medida em que o tumor começa a evoluir para uma fase avançada, ainda se fazem outras tentativas terapêuticas oncológicas, mas paralelamente, os cuidados paliativos são intensificados. "Essa evolução é muito importante e deve ser progressiva para manter o máximo de qualidade de vida desse paciente em todos os estágios da doença", diz o Dr. Camargo.

O controle ideal dos sintomas corroborado por estudos controlados com todo o rigor científico presente nas pesquisas médicas é variável e pode ter maior ou menor sucesso. Na maioria dos casos, em torno de 80 a 90%, é considerado satisfatório pela equipe de medicina paliativa e Terapia da Dor do Hospital Amaral Carvalho.

Com a instituição dos hospices modernos (Centros Terapia da Dor e Medicina Paliativa) a partir dos trabalhos da médica inglesa Cecily Saunders, vários centros na Inglaterra, Canadá, EUA e Austrália - países mais tradicionais na criação dos hospices - começaram a levar a efeito pesquisas para descobrir as técnicas mais adequadas e mais eficientes no controle de sintomas colaterais, responsáveis pelo desconforto do paciente em fase terminal.

Uma enfase grande é dada ao suporte emocional e espiritual do paciente e seus familiares não só pelo médico , mas pelo demais membros da equipe como enfermeiros, psicologo, voluntários e religiosos, pois o processo de morrer não deve ser lidado só de forma técnica, envolvendo questões espirituais e filosóficas.

Entidade em franco crescimento no contexto internacional, a Medicina Paliativa é pouco disseminada no Brasil, sendo conhecida por um universo ínfimo de profissionais. Sua importância, porém, é indiscutível. A OMS prevê um crescimento inevitável de casos de câncer nos países em desenvolvimento, em sua maioria destituídos de programas educativos e de prevenção das moléstias degenerativas. Uma vez que a estrutura de tratamento de câncer ainda é insuficiente, esses países não darão conta de tratá-los, fazendo com que cerca de 50% deles evoluam para o estágio terminal da doença.

"A estrutura de diagnóstico precoce e de medicina preventiva de câncer nos países emergentes, ainda é uma estrutura insuficiente para prevenir o crescimento dessa doenças. A OMS manifestou ser a Medicina Paliativa a única resposta possível para a multidão de pessoas que terão câncer na condição de pacientes fora de possibilidade de cura dentro de seis ou oito anos", revela o médico.

A preocupação com o aumento de casos de câncer sem possibilidade de tratamento curativo já atingiu as esferas mais altas da medicina mundial, fazendo com que a OMS não apenas preconize, mas estimule o crescimento de profissionais e de equipes especializados em Medicina Paliativa. Através da Cancer Unit, a entidade organiza, anualmente, dois cursos intensivos na International Schooll For Cancer Care, no San Peter’s College, em Oxford, dirigido a médicos de todo o mundo.

Na Inglaterra - país precursor dessa prática e que serve como modelo de serviços que deram certo dentro dessa área médica - a Medicina Paliativa é reconhecida pelas entidades reguladoras da medicina há 38 anos.

"Os resultados obtidos do ponto de vista do conforto físico, espiritual e psicológico para o paciente e pelo baixo custo em relação a terapias convencionais visando cura como a quimioterapia e radioterapia, são um argumento poderoso para que se invista na formação de novos profissionais", reafirma Camargo.



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